Ao mesmo tempo em que se destaca por esses números, o Rio também merece atenção por personificar a situação de vários destinos gays no Brasil, que reúnem grande quantidade de atributos para atrair esse consumidor (como belezas naturais e vida noturna variada), mas que ainda estão longe de apresentar excelência na qualidade do atendimento.
Melhorar essa situação é fundamental para que o País conquiste uma fatia maior no mercado turístico LGBT, que rende significativos R$ 395 bilhões por ano em todo o mundo.
“Alguns destinos já estabeleceram boas políticas de atendimento ao turista LGBT, mas a grande maioria está atrasada”, aponta Martha Dalla Chiesa, presidente da Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes (ABRAT-GLS). “Se pegarmos as 12 cidades que sediarão a Copa do Mundo, por exemplo, veremos que apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife estão razoavelmente preparadas para receber esse turista”, analisa a presidente da ABRAT GLS, ponderando que o evento máximo do futebol mundial deve atrair pouco o público LGBT.
Responsável pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da prefeitura do Rio (CEDS),Carlos Tufvesson aponta alguns esforços da capital fluminense para receber melhor o turista gay.
“Um dos fatores de maior peso que o turista gay faz ao
escolher uma cidade para visitar ou não é a política de cidadania LGBT. O
preconceito pode acometer a todos em todos os lugares, mas o Rio tem
leis que resguardam o LGBT”, explica Tufvesson, que destaca a lei local
que pune os estabelecimentos comerciais que recriminem a troca de
carinhos pública entre um casal gay. No entanto, o coordenador do CEDS
reconhece que ainda há muito a melhorar. “De maneira geral, o
atendimento de serviços no país está muito ruim. Não podemos ter a
ilusão de que estamos no nível da Noruega”, avalia ele.
Coordenador-geral de Programas de Incentivo a Viagens do Ministério do Turismo, Wilken Soutotem uma visão mais
otimista da questão, apontando inclusive os avanços das já citadas
cidades do Rio, São Paulo, Recife e Salvador, e também de Florianópolis,
Brasília, Maceió e Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Ele diz ainda
que políticas têm sido desenvolvidas para capacitar as cidades
brasileiras a receber o público gay. “Foram criados editais que
contemplam apoio aos eventos LGBT, como as paradas”, exemplifica Souto,
lembrando que todos os municípios brasileiros podem se candidatar a
receber recursos.
Souto ressalta que agentes públicos, empresários do setor e
militantes LGBT têm discutido maneiras de sensibilizar os prestadores de
serviço, como agentes de viagem, funcionários de pontos turísticos e
trabalhadores da hotelaria. Ele cita a 2ª Conferência Nacional de
Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT, que aconteceu em 2011, em
Brasília, como um momento importante dessa discussão.Natural e igualitário
A presidente da ABRAT-GLS ressalta que quem trabalha com o consumidor LGBT deve entender que os gays não desejam um tratamento diferente dos outros turistas, mas sim respeito à sua individualidade e à sua orientação sexual. “O atendimento específico para esse público não é nada mais do que o natural e igualitário. O fundamental é lidar com o público LGBT sem preconceito ou desconforto”, observa Chiesa.
Desta forma, não deve ser oferecido um quarto com duas camas de solteiro para um casal gay que reservou uma cama de casal, por exemplo. Neste sentido, Chiesa acredita que o treinamento deve ser feito em duas frentes. “Na primeira, o trabalho se dá com gestores, profissionais de recursos humanos e em cargos de comando. Na segunda, os trabalhadores da linha de frente, como garçons, recepcionistas e camareiras”, descreve a presidente da ABRAT-GLS.
Para Chiesa e Tufvesson, as políticas públicas e privadas
que visam um atendimento natural e igualitário ao turista LGBT não vão
ter tanto resultado se iniciativas como o projeto de ‘cura gay’
prosperarem no Congresso Nacional, dando ao Brasil uma imagem
internacional de nação intolerante.
O recente congelamento no Congresso do projeto de lei que pune a
homofobia também entra nesta conta de itens que atrapalham a imagem do
Brasil lá fora. “No começo do ano, estávamos animados por conta da
aprovação do casamento gay. Mas agora, no final, vimos uma série de
retrocessos no Congresso”, lamenta Chiesa.“O grande problema do nosso país é que estamos nos tornando intolerantes e as minorias não se unem. Desta forma, acabamos não conseguindo representação parlamentar, o que torna tudo mais difícil”, finaliza Tufvesson.

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