Durante
uma pergunta feita pelo público presente no sábado (2) na Casa do Autor
Roteirista, atração paralela à 12ª Festa Literária Internacional de
Paraty (Flip), Silvio de Abreu pediu licença e fez uma observação. O
autor de novelas falou sobre como essas obras pautam a sociedade e,
inclusive, ajudam a combater o preconceito com os gays.
O G1 transmitirá
ao vivo todas as mesas da Flip 2014, tanto com áudio traduzido (se a
palestra não for em português) quanto com áudio original.
“Ela não modifica sua
cabeça, mas ela coloca os temas que serão discutidos, que poderão ter
uma consequência maior dentro da sociedade, eu acredito. Acho inclusive
que a aceitação maior do homossexual se deve muito às novelas, porque
quando a gente passou a fazer isso [colocar personagens gays na TV],
passou a mostrar que não era nenhum bicho de sete cabeças”, afirmou.
Ele participou de um
encontro com o público mediado pela escritora e também autora de novelas
Thelma Guedes e pelo cineasta Newton Cannito, curadores da Casa do
Autor Roteirista, criada em 2013. Durante o bate-papo, lembrou o início
da carreira, contou casos curiosos e falou do processo de criação na
teledramaturgia, que pode não funcionar se for “muito racional”.
“Novela é
entretenimento. Pode trazer ideias, discussões, mas o que interessa é
ela ser lúdica, é ela mexer com a emoção do público. Não acredito que a
novela se comunique através da razão, toda novela que é muito racional
não se comunica. Ela comunica através da emoção. Emoção de você não
saber o que vai acontecer”.
Segundo Silvio de
Abreu, a narrativa dessas obras “não é filme, não é romance” e deve
continuar independente do que acontecer com o elenco. Ele considerou que
as novelas podem ser comparadas ao cinema norte-americano devido à
agilidade que exige dos atores, que gravam sem ensaios.
“É como é. O diretor
chega: ‘Decorou? Faz isso, faz aquilo... Vamos gravar? Vamos gravar’”,
contou. “Se o cara [ator] não tiver pronto... Cinema americano é assim
também”.
“Como autor, escrevo
para o ator. Pra mim, a coisa mais importante da novela é o ator.
Casting é 90% da novela”, disse. “O que faz sucesso não é elenco de
estrela, é elenco bem escalado”.
'O buraco é mais embaixo'
Ele acredita, porém,
que “novela é um produto de equipe”, apesar do autor às vezes sair como
único culpado se a audiência não for boa. Outro problema apontado por
Silvio de Abreu é que todos acham que podem escrever novela e não é bem
assim, porque “quando você vai fazer, percebe que o buraco é mais
embaixo”.
“Não é todo mundo que
quer escrever novela que tem talento para isso. A peneira também é
apertadinha, porque todo mundo acha que sabe”, opinou. “Se você tem
personagens bem embasados, pode levar [a novela] para onde quiser. Se
não tem embasamento humano forte, não adianta, você não vai conseguir
pegar o público”.
O autor ainda comentou
sobre trabalhar na supervisão de textos da teledramaturgia e a
importância de ensinar a nova geração de autores para manter a
existência do gênero.
“Supervisionar novela
não é fazer o autor fazer a novela que está na sua cabeça, é fazer
novela que está na cabeça dele. Em que eu posso contribuir para isso?”,
questionou.
“Se você não tiver
novos autores, o gênero vai morrer. Se o gênero morrer, a classe
artística brasileira vai ficar sem ter um meio de se apoiar, porque o
cinema paga muito pouco, teatro você faz hoje, não sabe de amanhã, tem
dificuldade para atrair público. E novela não, novela é uma indústria.”
Newton Cannito e Thelma Guedes mediaram
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